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Multidões vão às ruas contra governo


Não há números oficiais. Nas contas da UNE, foram 1,5 milhão de pessoas nas ruas de todo o Brasil. Encheram mesmo as ruas. Segundo a Folha, manifestantes chegaram a ocupar dois quilômetros da larga avenida Paulista. No Rio de Janeiro, observa O Globo, foram preenchidos pela massa também largos trechos das avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, além da rua Primeiro de Março. Em Salvador, conta o G1, o grupo se espalhou pela avenida Sete de Setembro. Todas as capitais, um total de pelo menos 200 cidades. A convocação de ontem partiu já faz mais de mês de partidos de esquerda e centrais sindicais — seria um protesto contra a reforma da Previdência. Nas fotos aéreas (veja), em que o tamanho da multidão fica muito claro, os grandes balões sugerem um retorno dos tradicionais protestos de esquerda. Mas há uma sutil diferença: não há predomínio de camisas vermelhas, porém um salpicado de todos os tons possíveis. Diferença que, nas fotografias feitas do chão, logo fica clara. Gente com todo tipo de roupa, inúmeros cartazes feitos a mão, e uma mensagem predominante: repulsa ao ataque que, no discurso, o governo faz contra as instituições de ensino e pesquisa. São cinco meses de mandato. Na história da República brasileira, desde 1889, nunca um presidente atraiu tanta gente às ruas em protesto com tão pouco tempo no cargo.

Galerias: registros do G1 pelo Brasil, com destaque para os cartazes, assim como do Poder 360, em Brasília.

Jair Bolsonaro, antes de saber do vulto das manifestações: “A maioria ali é militante. Não tem nada na cabeça. Se perguntar 7 vezes 8, não sabe. Se perguntar a fórmula da água, não sabe. Não sabe nada. São uns idiotas úteis, uns imbecis que estão sendo utilizados como massa de manobra de uma minoria espertalhona que compõe o núcleo de muitas universidades federais do Brasil.” (G1)

Ele não estava no Brasil. Estava em Dallas, no Texas, para receber o prêmio de Personalidade do Ano que a Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos não conseguiu entregar em Nova York, por falta de espaço que o acolhesse. O prefeito de Dallas — democrata — recusou-se a recebê-lo. Foi recebido, porém, pelo ex-presidente George W. Bush. A convite, informou o porta-voz do Planalto. Ele se convidou e foi recebido por cortesia, apesar de a visita ser inesperada, disse a assessoria do republicano. (Veja)

O vulto que tomou preocupa o Planalto. A portas fechadas, auxiliares do presidente reconhecem que foi grande e que o próprio Bolsonaro, pela manhã, inflamou com seus comentários o movimento. (Estadão)

José Roberto de Toledo: “Todo governo escolhe sua oposição. Ao definir qual rubrica orçamentária recebe mais ou menos, o mandatário beneficia uns em detrimento de outros e acaba por eleger quem vai se opor a ele. O governo Bolsonaro escolheu estudantes, professores e todos os que prezam a educação pública. Se foi de caso pensado não foi bem estudado. Bolsonaro levou centenas de milhares às ruas e tomou uma sova sem precedentes no seu ringue predileto, as mídias sociais. Gente jovem foi às ruas em quantidades industriais não só no Rio, Belo Horizonte e Fortaleza, mas no agreste pernambucano e interior paulista. O movimento é espalhado e descentralizado. Quase toda grande cidade tem um campus universitário, quase todo município tem pelo menos uma escola. Mais capilaridade e conectividade, impossível. Universitários são os mais engajados nas mídias sociais e muitos possuem smartphones. Fica fácil para se organizar, escolher pontos de encontro, agendar manifestações. Faltava um motivo, que o governo entregou de bandeja. Ao copiar o molde de governos europeus de extrema-direita que atacam instituições universitárias, a parelha governamental fez um estrago digno de uma manada de javaporcos. Ignorou a extensão, onipresença e capilaridade das universidades e dos cursos técnicos federais. O movimento de protesto pode acabar amanhã sem dar em nada de concreto. Mas a imagem de um presidente popular e dono das ruas ficou no passado. Bolsonaro e companhia conseguiram materializar nas praças as taxas crescentes de avaliação negativa do governo, para felicidade do Centrão — o consórcio dos partidos amorfos que tem a maior bancada do Congresso. Rodrigo Maia agradece: Bolsonaro deu mais um passo para o parlamentarismo de fato.” (Piauí)

Então... O presidente não estava, mas o ministro da Educação, Abraham Weintraub, sim. E ao vivo, na televisão, prestando depoimento no plenário da Câmara, enquanto as TVs oscilavam entre mostrá-lo e às multidões. O discurso de que puniria cursos de Humanas, universidades que tinham ‘balbúrdia’ ou excesso de gente nua sumiu, substituído por um técnico. Não há cortes, como falara o próprio governo. É contingenciamento — o dinheiro volta quando o caixa do Estado encher. “Vim da iniciativa privada”, afirmou. “Quando você bate a meta, desvia recursos para as metas em que está aquém.” Sua lógica é de que é preciso escolher e as universidades não precisam de dinheiro como precisa o ensino básico. (Poder 360)

O ministro não ficou sob pressão contínua. O Centrão, que trabalhou para sua convocação, optou por não forçar o desgaste. Morde, assopra. O líder do DEM, no entanto, alfinetou: não dá aval para as ‘pautas ideológicas’ do governo. (Estadão)

Paulo Celso Pereira: “Desde sua eleição, Bolsonaro escolheu três ministérios para travar sua batalha ideológica: Relações Exteriores, Direitos Humanos e Educação. Enquanto os dois primeiros têm relação apenas indireta com a vida dos brasileiros, o terceiro faz parte do dia a dia da população. De acordo com o Censo escolar do ano passado, 39,5 milhões de brasileiros estavam matriculados nas escolas públicas do país. Além deles, boa parte dos 9 milhões que estão no ensino básico privado sonham em um dia ingressar nas universidades públicas, que abrigam hoje quatro milhões de estudantes. Bolsonaro escolheu para a pasta o professor Ricardo Vélez, um ilustre desconhecido. Sua curta gestão foi marcada por polêmicas. O economista Abraham Weintraub o sucedeu com o mesmo espírito. Até que vieram os cortes. A discussão da medida poderia ter sido técnica, ante a gravidade da crise econômica. Mas foi o próprio governo que a tratou como uma decisão política quando o ministro disse, inicialmente, que ela se daria sobre instituições onde houvesse ‘balbúrdia’. A reação veio ontem. Jair Bolsonaro, na esteira do antipetismo, obteve notáveis 55% dos votos. Desde então, sua popularidade vem sendo minada a passos largos. O Congresso vem mostrando que já não teme as bordoadas ou tuítes do clã presidencial. Quem encheu as ruas ontem também não.” (Globo)

Por fim: saiba o que é verdade, e o que não é, a respeito do que o governo chamou de cortes e agora chama de contingenciamento. (BBC)

Por: Meio

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