Anuncie

Anuncie

Bolsonaro flerta com messianismo e pede povo na rua



O presidente Jair Bolsonaro divulgou ontem, através do seu Facebook, um vídeo no qual o pastor congolês Steve Kunda o declara escolhido por Deus para governar o Brasil assim como Ciro o foi, na Pérsia. “Não existe teoria da conspiração”, afirmou o presidente ao compartilhar, “existe uma mudança de paradigma na política.” No vídeo, falando em francês, o pastor da congregação Orleans Gospel 45, deixa claro que não está fazendo política. “Sustentem esse homem, apoiem-no. Deus falou que os dois primeiros anos dele não serão fáceis. Mas foi Deus quem o escolheu.” (Poder 360)

Na sexta, como revelou Tânia Monteiro, Bolsonaro já havia distribuído por WhatsApp um texto com carga pessimista. “Bastaram cinco meses de um governo atípico para nos mostrar que o Brasil nunca foi, e talvez nunca será, governado com o interesse dos seus eleitores”, afirmou o autor até então apócrifo. “O Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento. Que poder, de fato, tem o presidente do Brasil? Como todas suas ações foram ou serão questionadas no Congresso e na Justiça, apostaria que o presidente não serve para nada. Bolsonaro não é culpado pela desfuncionalidade, pois não destruiu nada, aliás, até agora não fez nada de fato, não aprovou nada, só tentou e fracassou.” O texto, sem assinatura, foi escrito por Paulo Portinho, um analista da Comissão de Valores Mobiliários. “Só quis dizer o que está acontecendo no Brasil”, afirmou. Quando perguntado a respeito do que queria dizer com o texto, o presidente limitou-se a afirmar — “Pergunta para o autor, apenas passei para meia dúzia de pessoas.”

Bernardo Mello Franco: “O texto descreve Bolsonaro como refém das ‘corporações’, entre elas Congresso, Justiça e Forças Armadas. No fim, traça um cenário de ‘ruptura institucional irreversível, com desfecho imprevisível’. O tom apocalíptico lembra a carta-renúnciade Jânio Quadros, outro presidente que chegou ao poder com discurso messiânico. Na campanha, brandia uma vassoura com a promessa de limpar a ‘bandalheira’ da política. No poder, perdeu-se em medidas como a proibição da briga de galo e do maiô de duas peças. Em agosto de 1961, Jânio escreveu que desejou ‘um Brasil para os brasileiros’, mas foi ‘esmagado’ por ‘forças terríveis’. A renúncia, sete meses depois da posse, foi uma tentativa frustrada de emparedar o Congresso. ‘Imaginei que o povo iria às ruas, seguido dos militares, e que seria chamado de volta. Deu tudo errado’, ele confessaria, três décadas depois. Bolsonaro já imitou o antecessor nas cruzadas conservadoras. Ao flertar com a radicalização, o presidente sugere que o fantasma de Jânio continuará a nos assombrar.” (Globo)

Pois é... Via Twitter e via WhatsApp, aliados de Bolsonaro estão convocando uma manifestação favorável ao presidente para o próximo domingo. Sugerem, assim como afirma a carta distribuída pelo presidente, que o ‘establishment’ está resistindo ao governo e apenas o povo na rua pode mudar este processo. Os dois grupos responsáveis pelas manifestações pró-impeachment, MBL e Vem Pra Rua, anunciaram formalmente que não aderiram à mobilização. (Antagonista)

A bancada do PSL não está convencida de que a convocação é uma boa ideia. A líder do governo no Congresso vê os atos como um ‘tiro no pé’, informa o Painel. (Folha)

Vera Magalhães: “O governo flerta perigosamente com o tudo ou nada ao estressar as relações institucionais ao mesmo tempo em que tenta medir forças com a oposição nas ruas. O presidente, seus aliados mais ideológicos, os seguidores fanatizados das redes e mesmo alguns ministros bem intencionados, mas não versados nas nuances da política, acusam a imprensa de cobrar duramente o governo e não denunciar o que seria a chantagem do Parlamento. Aliados convocam, com o beneplácito da primeira-família e de assessores cruzados com assento no Planalto, o ‘homem comum’ para ir às ruas se insurgir contra o Legislativo, o Supremo ou quem mais ousar se interpor no caminho das pretensões de Bolsonaro — como se o simples fato de ter vencido as eleições lhe outorgasse carta branca para agir à revelia dos demais Poderes e sobrepujando uma parcela significativa da sociedade que não concorda com essa pauta. Medir forças nas ruas tendo como currículo investidas contra educação, cultura, diversidade social, meio ambiente e direitos humanos, baseado na crença de que o Brasil se transformou subitamente num País de extrema-direita e que todos esses assuntos são de interesse apenas da esquerda, é uma prova a mais de completa desconexão com a realidade, e pode fazer com que o desgaste do governo escale alguns degraus. É muito cedo para Bolsonaro enveredar pelo tudo ou nada. A insistência nesse caminho pode ter o efeito de evidenciar um desgaste que cresce a cada dia por iniciativa exclusiva do próprio governo.” (Estadão)

Por: Meio

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.