10 dezembro 2018

Governo Bolsonaro enfrenta primeira suspeita antes da posse



A estranha movimentação de dinheiro nas contas de Fabrício Queiroz, um subtenente da Polícia Militar que serviu de motorista ao deputado estadual eleito senador Flávio Bolsonaro, mobilizou o gabinete de transição. A ala militar do governo se sente particularmente desconfortável. “Uma coisa é a justificativa jurídica”, disse a Gerson Camarotti um integrante da equipe. “Outra é uma resposta imediatapara a sociedade.” A Andréia Sadi, Eduardo, irmão de Flávio, foi mais direto. “O que ocorreu ali ninguém sabe, nem o Coaf. A gente tem que trabalhar para não permitir interferência na investigação.” Segundo o presidente eleito, os R$ 24 mil que Queiroz depositou na conta de sua mulher, Michelle Bolsonaro, foram parte do pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil. “Tenho dificuldade para ir em banco, andar na rua. Deixei para minha esposa. Lamento o constrangimento que ela está passando, mas ninguém recebe ou dá dinheiro sujo com cheque nominal.”

Vera Magalhães: “O futuro ministro Onyx Lorenzoni deixou uma entrevista coletiva no meio na última sexta com ares de indignação. Essa postura mostra a dificuldade de quem sempre atirou pedras de se colocar na posição de vidraça. Mas é bom o ministro já ir se acostumando. A eleição do futuro presidente e de boa parte do novo Congresso, bem como de muitos governadores, se deveu em grande medida à indignação com a corrupção associada a PT e seus aliados. Ao inflamar ainda mais a sociedade contra os malfeitos, Bolsonaro e seus aliados atraíram para si a expectativa de um comportamento em tudo diferente daquele que condenaram em tom tão grandiloquente. Não adianta virar as costas. Muito menos apelar para o ‘e no tempo do PT’, como também fez Onyx. Os dois truques, aliás, foram usados pelos petistas. Primeiro afetar indignação diante das evidências de desvios em casos como o mensalão e o petrolão, por exemplo. Os petistas adoravam evocar o passado de CPIs e denúncias contra adversários do partido, antes de chegar ao poder, como se isso fosse um salvo-conduto eterno. E o segundo o de, diante da denúncia, sempre trazer à baila o adversário para demonizá-lo. ‘E no tempo do Fernando Henrique?’ era o curinga que os petistas sempre tiravam da mão quando se viam em apuros.” (Estadão)

Helena Chagas: “Sem entrar no mérito da denúncia em si, que poderá ou não ser explicada satisfatoriamente pelos Bolsonaro, há uma constatação inevitável em sua divulgação: o mecanismo de investigações continua funcionando a todo o vapor. E não há o menor sinal de que vai parar depois da eleição de Bolsonaro. Esse mecanismo tem como pilar importante a divulgação, ou o vazamento, de informações, relatórios (como esse do Coaf), trechos de depoimentos de delatores quase sempre comprometedores para os políticos que estão no alvo — que, culpados ou inocentes, ficam sabendo pela mídia. E o roteiro segue a partir daí: noticiário, inquérito, denúncia e, claro, a desmoralização da política. Esse foi um dos componentes importantes da eleição de Bolsonaro: o voto antipolítica e anticorrupção. O mecanismo continua vivo e, mais cedo do que se imaginava, volta-se contra ele e os seus. Ao nomear Sérgio Moro, o presidente eleito apertou ainda mais a armadilha na qual agora se encontra. Não pode questionar as investigações e nem seus comandantes, não poderá sequer pedir algum alívio. Sempre haverá um agente público disposto a vazar uma informação, e sempre haverá um jornalista pronto a publicá-la. E o público acostumado a esse cardápio pedindo sempre mais. Apertem os cintos.”

Por: Meio