06 agosto 2018

Uma chapa Haddad e Manu?



Foi um fim de semana de intenso vaivém no alto-comando petista — e faltava menos de uma hora para a meia-noite quando todas as peças finalmente se arrumaram em público no tabuleiro. O ex-prefeito paulistano Fernando Haddad será o vice de Lula, proclamado candidato na convenção de sábado. Manuela D’Ávila, que havia sido indicada à presidência na quarta, abriu mão da briga para que seu partido entrasse em coligação com o PT. Ao que tudo indica, no momento em que o TSE impugnar a chapa com o ex-presidente por conta da Lei da Ficha Limpa, devem se apresentar Haddad e Manuela para a disputa. (Estadão)

Para que simplificar? No discurso oficial, Haddad é um ‘vice temporário’, só enquanto não se resolve a situação de Lula. No cenário em que o ex-presidente estiver livre para disputar o Planalto imaginado pelo PT, Haddad deixaria a vice para que Manuela assuma o cargo. (Globo)

Mas... Não foi um fim de semana tranquilo. No centro da polêmica esteve o desencontro de datas na lei eleitoral. O texto estabelece que as convenções dos partidos precisam ocorrer até 5 de agosto — ontem —, devem estabelecer candidatos, vices e coligações, e os resultados têm de ser publicados num prazo de 24 horas. Hoje, portanto. O registro da chapa perante o TSE, porém, pode ser feito até o dia 15. O PT pretendia fechar sua chapa dentro do prazo mais conservador. Mas aí na sexta, a presidente da legenda Gleisi Hoffmann embarcou às pressas num jatinho, acompanhada de Fernando Haddad, convocados para uma reunião na cela de Lula. Quando saíram, tudo havia mudado. No sábado, o PT encerrou sua convenção nacional sem vice. Aflitos, em off, executivos do partido temiam a possibilidade de não fechar a chapa e correr o risco de anulação por erro bobo. O sempre leal jornalista Ricardo Kotscho chegou a bater duro, em seu blog: “Lula apequena o PT e humilha os velhos aliados.” Já era noite de domingo quando chegou uma carta de Lula indicando Haddad e mencionando simpatia por Manuela.

Pois é: o PSB nacional entregou aquilo que prometeu ao PT. Cassou a candidatura de Márcio Lacerda ao governo de Minas e pôs-se neutro na disputa pelo Planalto. Em troca, o PT retirou a candidatura de Marília Arraes ao governo de Pernambuco. A neta de Miguel Arraes concorrerá a uma vaga na Câmara dos Deputados. Lacerda não aceitou tão facilmente a intervenção e pretende ir à Justiça para confirmar a candidatura do PSB mineiro. No estado, o PT lançou Fernando Pimentel à reeleição e Dilma Rousseff ao Senado. (Estadão)

Aliás... Por pouco, por muito pouco, Dilma não dividiria novamente o palanque com o MDB. Era o que queria Pimentel e boa parte do MDB. A ex-presidente bateu o pé. E com a dificuldade do lado de lá, o MDB decidiu, já havia passado da meia-noite, apoiar a candidatura sub judice do PSB de Márcio Lacerda. Dá bastante tempo de TV para o socialista.

Os institutos de pesquisa têm um problema: a partir de 15 de agosto, quando o registro das candidaturas já tiver ocorrido, cenários diversos não poderão mais ser apresentados aos eleitores. Ou seja, todas as pesquisas terão Lula — e nenhuma terá Haddad, informa Lauro Jardim. (Globo)

Celso Rocha de Barros: “A estratégia do PT de insistir na candidatura de Lula é mais racional do que se pensa. Como Geraldo Alckmin, Lula aposta que essa eleição será decidida do mesmo jeito que as outras: por coalizões partidárias fortes e pelo desempenho da economia. Alckmin apostou na formação de grandes coalizões. Lula aposta que elegerá o próximo presidente pela situação da economia, que, por ser ruim, favorece a oposição. Ao insistir com Lula, o que o PT promete ao eleitorado é a prosperidade dos anos lulistas, que pretende comparar à desolação dos últimos anos. Nesse ponto, ‘Lula’ virou mesmo uma ideia: a ideia de pobres com mais dinheiro no bolso.” (Folha)

A candidatura de Jair Bolsonaro será de puro sangue militar, com o general da reserva Hamilton Mourão, também presidente do Clube Militar, na vice. O ex-capitão se inclinava pelo príncipe Luiz Philippe de Orleáns e Bragança, de seu partido, mas pesou o tempinho a mais de TV que uma aliança com o PRTB de Mourão traria. A advogada Janaína Paschoal recusou o convite no sábado, e fez o anúncio público via Twitter. Seus filhos não poderiam se mudar para Brasília. (Globo)

O PDT de Ciro Gomes se apresenta à corrida com a senadora Kátia Abreu na vice. Ela, que chegou à política como líder ruralista e, feita ministra por Dilma, tornou-se uma de suas mais leais parceiras contra o impeachment, é do mesmo PDT. Não traz, portanto, tempo de televisão. “Se eles estão preocupados em esvaziar o tempo de TV”, declarou, “é porque Ciro tem algo a dizer.” (Folha)

Ao todo, 13 candidatos se apresentaram à disputa pelo Planalto. Veja a lista. Nela, entra até João Vicente Goulart. O filho de Jango.

O tempo na TV começa a ser desenhado. Segundo as contas doValor, Geraldo Alckmin terá pouco mais de 40% do programa eleitoral gratuito. O PT, já se levando em conta o apoio do PCdoB, ficará em segundo com quase 20%. Henrique Meirelles, do MDB, vem em terceiro com 15% e Álvaro Dias em quarto, com 5%. É mais ou menos o que Ciro Gomes terá. A Marina Silva caberá 3%. Jair Bolsonaro terá 8 segundos de TV por dia, metade do que teve Enéas Carneiro em 1989. O cálculo é feito de acordo com o tamanho das bancadas de cada coligação na Câmara.

Por: Meio