08 junho 2018

Acuado, governo bate cabeça sobre fretes



A bruxa voou. No final da tarde de ontem, a Agência Nacional dos Transportes Terrestres publicou uma nova tabela mínima do frete, com validade imediata. Reduzia, em média, uns 20% do preço médio da tabela anterior. Os números refletiam o alarme de empresários dos setores agrícola e industrial, que falavam de grandes aumentos de preço para o consumidor final caso não houvesse alguma correção. O ministro dos Transportes, Valter Casimiro, chegou a afirmar que ela havia sido apresentada e aprovada tanto pelas empresas de transporte de setores como o agronegócio como pelos representantes de caminhoneiros autônomos. A decisão de rever os números não durou. Os caminhoneiros se revoltaram. E assim, já tarde da noite, foi revogada a nova tabela de umas horas antes.

Aliás... Casemiro viu-se obrigado a permitir o registro em vídeo de seu anúncio: acuado perante os caminhoneiros numa mesa de reunião, explicou que estava revogando sua decisão, para que o arquivo pudesse ser distribuído por WhatsApp pela classe. Josias de Souza tem o flagrante.

Não tinha como ser diferente: a quinta foi estressante para o mercado financeiro. A cotação do dólar fechou ontem a R$ 3,91 — no pior momento, chegou a R$ 3,96. E a Bolsa, que fechou em queda de 2,93%, aos 73.85 pontos, chegou a recuar 6,5%. Pressionado, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, convocou uma entrevista para dizer que vai oferecer mais US$ 20 bilhões ao mercado até o final da semana que vem para tentar conter a volatilidade do dólar, e que, se necessário, pode até recorrer às reservas cambiais. Mas aumentar a taxa básica de juros, a Selic, é hipótese descartada. (Estadão)

José Paulo Kupfer: “É confortável, na teoria, a situação das contas externas brasileiras. Além do colchão de US$ 380 bilhões em divisas externas — o equivalente a cerca de 20% do PIB, quando o próprio FMI considera mais do que suficiente algo como 12% a 15% do PIB —, a situação da balança em transações correntes se mostra tranquila, com um déficit abaixo de 1% do PIB, coberto com sobras pelo ingresso de investimentos externos diretos. O problema é que nenhum colchão de liquidez, vacina antiespeculação ou seguro contra incêndios cambiais consegue ser efetivo diante de uma reação que, na verdade, pouco tem a ver com os fundamentos da economia. A crise atual se alimenta principalmente de componentes políticos. Temores de que as urnas presidenciais de outubro sufraguem um candidato ‘populista’, combinados com a fragilidade do governo, cruamente exposta pela incapacidade de conter a desorganização produtiva deflagrada pela greve do setor de carga rodoviária, é que estão de fato por trás das turbulências dos dias recentes nos mercados de ativos. Daí ser possível especular pelo menos duas hipóteses. Uma, que a corrida contra o real, embora com momentos de calmaria no meio do caminho, não dará tréguas até o desfecho da eleição — já há apostas em um dólar a R$ 4,50 até lá. Outra é que, vencendo um ‘reformista’, em pouco tempo as cotações da moeda americana recuariam — há quem estime R$ 3,50 ou até menos.” (Globo)

Fernando Henrique: “Uma crise moral combinada com estagnação econômica forma uma mistura mortal para qualquer sociedade. A classe política perdeu sua credibilidade e legitimidade. Não houve uma revolução no Brasil, mas assistimos às condições revolucionárias nas quais vingadores se preparam para cortar as cabeças da elite enquanto são celebrados pela população. Se a história serve de guia, o jogo termina com um líder carismático, salvador da pátria ou homem de punho forte, que chega para encerrar a anarquia. A esquerda, sem seu líder natural, se sente insegura. A direita pede restauração da ordem a qualquer custo. O restante está fragmentado, incapaz de se reagrupar num centro político — um amalgama de uns com uma visão arcaica, outros liberais e uns terceiros com valores socialdemocratas que valorizam as instituições da democracia e reconhecem que a desigualdade é a maior ameaça. Nossa sociedade, como outras, está dividida pelos avanços da modernidade: ascensão social, a era da informação e o surgimento de uma política de gênero e de raça. Juntas, as três quebraram a coesão das antigas divisões de classe, assim como dos partidos e ideologias que as representavam.” (Washington Post)

Fonte: Meio