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11 maio 2018

CIA: Geisel puxou para si decisão sobre assassinato de opositores



Ao chegar à presidência, o general Ernesto Geisel foi informado de que 104 ‘subversivos perigosos’ haviam sido executados no ano anterior pelo governo de Emílio Médici, que o antecedeu. A informação lhe foi passada pelo general Milton Tavares, que chefiava o Centro de Informações do Exército, órgão responsável pela política de assassinatos de adversários políticos considerados terroristas pelo regime. Tavares pediu permissão para seguir com a política, Geisel quis pensar. Após um fim de semana, decidiu seguir pelo mesmo caminho, mas determinou que novas execuções deveriam ser autorizadas pelo general João Figueiredo, que comandava o Serviço Nacional de Informações, na antessala do presidente. Figueiredo, aliás, sucessor de Geisel no Planalto. A informação é inédita e, se correta, muda a compreensão da história. Descoberto por Matias Spektor, pesquisador da FGV, o relato foi feito em relatório oficial pelo diretor-geral da CIA, William Colby, para o secretário de Estado americano Henry Kissinger. “É o documento secreto mais perturbador que já li em vinte anos de pesquisa”, escreveu em um post no Facebook. “É a evidência mais direta do envolvimento da cúpula do regime (Médici, Geisel e Figueiredo) com a política de assassinatos.” O texto de Colby tem seis parágrafos dos quais dois permanecem secretos. Os outros podem ser consultados no site do Departamento de Estado.

Clóvis Rossi: “Até que esse excelente pesquisador que é Matias Spektor trouxesse a público o relatório da CIA, quase todo o mundo no Brasil acomodou-se à ideia de que, sim, havia torturas, prisões clandestinas, mortes e outras violências, mas era melhor acreditar que se tratava de ações de um grupo de celerados de farda, não autorizadas pelo andar de cima. Agora, a se acreditar no relatório da CIA, vê-se que o general Ernesto Geisel autorizou a execução de ‘subversivos perigosos’. Choca também o fato de que a autorização para matar veio de Geisel, o general que deu início à então chamada abertura lenta, gradual e segura, além de ter tomado uma ou outra iniciativa para coibir os abusos dos porões. Se um general-presidente mais moderado autoriza execuções, arrepia pensar o que diriam seus antecessores, considerados mais duros. O relatório da CIA torna mais fácil entender porque os militares brasileiros jamais fizeram uma autocrítica institucional, jamais pediram desculpas pelas violações sistemáticas aos direitos humanos. Não podiam: do andar de cima ao porão, toda a hierarquia foi cúmplice de um sistema abominável.” (Folha)

Leandro Loyola: “No meio do texto há uma pérola para historiadores: o momento em que o general Milton Tavares, então diretor do CIE, de saída do cargo, informa que 104 pessoas haviam sido eliminadas pelo CIE no ano anterior. Cifras de mortos e desaparecidos produzidas por militares brasileiros são uma raridade. Vinda de um oficial tão graduado, indica que os militares acompanhavam de perto o extermínio. Se sabiam o número, pode-se arriscar que sabiam seus nomes e onde foram executadas. Há espaço para investigação aí.” (Globo)

Por: Meio