07 setembro 2017

Quando PT acusa PT



No final de 2010, Emilio e Marcelo Odebrecht procuraram Lula, preocupados com a eleição de Dilma Rousseff. Temiam perder acesso. Num depoimento surpreendente perante o juiz Sérgio Moro, o ex-ministro da Fazenda e ex-ministro-chefe da Casa Civil Antônio Palocci contou ontem que, naquele momento, os dois executivos e o ex-presidente fizeram um “pacto de sangue” que passou por uma conta corrente de R$ 300 milhões que a empreiteira abriu para Lula e o PT. Parte deste acordo incluiu o sítio de Atibaia, a construção de um museu para o Instituto Lula (que não aconteceu) e um pacote de palestras. A reunião onde o acordo foi selado ocorreu nos últimos dias de dezembro e a presidente eleita Dilma Rousseff estava presente. (Globo)

Vídeo: os principais trechos do depoimento.

Palocci não tem um acordo de delação premiada. Mas ele está tentando negociar. Sua decisão de colaborar espontaneamente, contando parte do que sabe a Moro, é um aceno de boa vontade. No início do depoimento, os advogados de Lula questionaram o Ministério Público sobre a existência do acordo. “Estamos conversando”, respondeu um procurador, “não temos nada prometido, nem assegurado nem garantido, nem ele nos trouxe elementos prova que estão sendo utilizados em qualquer momento.” (Estadão)

Para o Instituto Lula, o depoimento de Palocci entra em contradição com o de outros delatores. “Um homem preso e condenado”, pôs em nota oficial, “busca negociar um acordo de delação que exige que se justifique acusações falsas e sem provas contra o ex-presidente.”

Mas... internamente, pelo menos um dirigente petista classificou o depoimento como uma “pá de cal”. (Folha)

Bernardo Mello Franco: “O depoimento é devastador para a defesa, a imagem e o futuro de Lula. Desta vez, o ex-presidente não pode alegar que foi fritado por um empresário aflito para sair da cadeia. Quem o jogou na fogueira foi um velho companheiro, que atuou como figura-chave nos governos do PT.” (Folha)

Fernando Rodrigues: “O relato contundente ao juiz Sérgio Moro certamente foi dado com algo cartesianamente calculado. A razão mais pragmática me parece tentar abreviar o tempo de cadeia e partir para algum tipo de pedido de benemerência, obtendo uma punição mais amena. Tentou algumas vezes fazer 1 acordo de delação premiada. Seu nhenhenhém foi rebarbado pelos investigadores da Lava Jato. O ex-ministro falava muito e dizia pouco. Percebeu que a estratégia estava fazendo água. Resolveu ser mais pró-ativo nesta semana.”

Rodrigo Janot planeja revogar a imunidade de Joesley Batista e dois executivos da JBS, segundo a Folha. O argumento é de que houve má-fé, o que viola duas cláusulas do acordo de delação premiada. A partir daí, podem ser denunciados e processados e, até, presos. Segundo Lauro Jardim, no Globo, Janot cogita ordenar sua prisão, assim como a de seu ex-lugar-tenente Marcello Miller.

O ex-procurador Marcello Miller negou ter cometido crime ou auxiliado na delação dos executivos da JBS de forma ilegal ou antiética.

Joesley depõe hoje, em Brasília, na Polícia Federal. (Folha)

Nos primeiros movimentos após a gravação em que Joesley se complica, três ministros do Supremo se manifestaram. Luiz Fux, Celso de Mello e Marco Aurélio Mello defendem que as provas produzidas por eles devem, ao menos em parte, ser mantidas. Os três consideram que a suspensão dos benefícios dos delatores não implica necessariamente em perda das confissões, gravações e documentos. Fux, aliás, é um que defende a prisão de Joesley.

Preocupados, estes ministros se puseram a trabalhar. Já encontraram duas ações, relatadas por Dias Toffoli e confirmadas pelo colegiado do STF, nas quais os colaboradores perdem os benefícios, mas “suas declarações, desde que amparadas por provas idôneas”, são mantidas. Precisam de jurisprudência para ir à guerra com seus pares. (Folha)

Afinal, a defesa de Michel Temer já protocolou pedido de suspeição de Janot, além de um pedido para ter acesso a todos os áudios relacionados às delações da JBS. Vai tentar derrubar todas as provas.

Fonte: Meio