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06 setembro 2017

O dia de 51 milhões de reais



A longa conversa entre o empresário Joesley Batista e o executivo Ricardo Saud não incrimina qualquer um dos 11 ministros do Supremo. Na segunda-feira, fontes que afirmavam ter ouvido a gravação diziam que ao menos um deles saía comprometido. Liberados os arquivos, não há nada. O total, no entanto, corresponde com fidelidade à descrição feita no final da tarde de segunda pelo procurador-geral, Rodrigo Janot. “O diálogo contém referências indevidas à PGR e ao Supremo”, ele disse. “Além de indícios de conduta criminosa atribuída ao ex-procurador Marcelo Miller.” Durante a conversa, Joesley e Saud de fato cogitam incriminar o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, forçando-o a grampear um ou mais ministros do STF. E dão a entender que Miller os orientou sobre como gravar a conversa com o presidente Michel Temer e preparar uma denúncia que pudesse ser aceita por Janot. O procurador-geral não é incriminado, mas Miller, que foi um de seus braços direitos, aparece manipulando-o. Ouça as gravações.

A insinuação de que poderia haver citação aos ministros gerou irritação no Supremo. Em conversa com Fernando Rodrigues, do Poder360, Gilmar Mendes partiu com fúria contra Janot. “Deu curso à sua estratégia delinquente e fez uma chantagem com o Supremo”, disse. Mais contida, a presidente Cármen Lúcia se portou como nunca fizera antes, gravando um pronunciamento em vídeo. “Agride-se de maneira inédita na história a dignidade institucional deste Tribunal”, falou, deixando ambíguo se a referência é a Janot ou a Joesley. “Enviei à Polícia Federal e ao procurador-geral ofícios exigindo investigação imediata a fim de que não fique qualquer sombra de dúvida sobre a dignidade deste Supremo.”

Em termos práticos, os benefícios recebidos por Joesley e Saud no acordo de delação podem ser rescindidos. Ou seja: no limite, eles podem ser processados e presos pelos crimes que confessaram. A defesa do presidente Temer pedirá que a gravação seja anulada como prova, por ter sido armada. Não é certo que ocorra. Mas um ex-deputado carregando uma mala de dinheiro pelas ruas de São Paulo — este tipo de prova, não, não será anulada, lembra a procuradora Silvana Batini. (Jota)

Aliás... O dia poderia ter sido bom para Temer, mas não foi. A Polícia Federal encontrou, em um apartamento de Salvador cujos vizinhos informam ser usado por Geddel Vieira Lima, malas e malas cheias de notas de R$ 100 e R$ 50. É homem de confiança do presidente, ex-ministro do governo Lula e ex-vice-presidente da Caixa no governo Dilma. Pelo período Dilma, foi acusado de receber R$ 20 milhões em propinas. Utilizando-se de máquinas de contagem, a polícia levou horas para aferir o valor exato: são pouco mais de R$ 51 milhões. Trata-se da maior apreensão de dinheiro em espécie da história da PF. Em números exatos, R$ 42.643.500 em reais e o equivalente a R$ 8.387.366,40 em notas de dólar. (Globo)

Não bastasse, o ministro Edson Fachin homologou a delação premiada do doleiro Lúcio Funaro. Entre os acusados estão Geddel, Henrique Eduardo Alves, os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco, além do próprio Michel Temer. (Estadão)

Felipe Recondo: O Supremo precisará decidir se mantém em sigilo a delação de Funaro. A praxe tem sido abrir após a Procuradoria-Geral apresentar denúncia, mas a lei permite manutenção do segredo enquanto ele for necessário para a investigação. Depois, os acusados — leia-se, Temer — podem pedir proteção da imagem. Mas haverá pressão popular pela publicação. (Jota)

Fonte: Meio