20 abril 2015

Produtores do oeste baiano recuperam estradas

Com os altos custos de infraestrutura logística comprometendo a competitividade dos grãos produzidos no oeste baiano, só restou aos próprios agricultores unir forças para recuperar as estradas locais, na tentativa de agilizar obras de responsabilidade do governo estadual. As ações foram iniciadas no final do ano passado e, desde então, já foram recuperados, em caráter emergencial, cerca de 500 quilômetros de rodovias, representando um gasto de R$ 8,8 milhões para o bolso dos produtores.

"A gente chegou à conclusão de que não adiantava ficar reclamando e esperando do estado, que não estava conseguindo realizar as obras na velocidade e no prazo que precisávamos", afirma o presidente da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), Júlio Cézar Busato. Segundo a associação, somente de ações em caráter paliativo, a exemplo de cascalhamento dos trechos mais esburacados, os produtores já gastaram R$ 800 mil.

Caçamba e lanche

Na última quinta-feira, Busato esteve em Salvador para uma nova audiência com o secretário de Infraestrutura, Marcus Cavalcanti. Ele apresentou os resultados da parceria, que foi proposta pela entidade à Seinfra e às nove prefeituras da região, no final de 2014. Desde então, os agricultores vêm cedendo tratores e caçambas para o transporte de material, sejam fornecendo os equipamentos ou contratando de terceiros. Eles também estão bancando os custos de transporte e alimentação dos operários. O estado, por sua vez, fornece a massa asfáltica e as prefeituras disponibilizam a mão de obra e máquinas para a realização dos serviços. Além do estado, as ações já realizadas contaram com a participação das prefeituras de São Desidério, Luís Eduardo Magalhães e Formosa do Rio Preto.

"Foi a alternativa que encontramos para termos condições de escoar a produção", afirma o presidente da Aiba. Segundo ele, por conta da deficiente infraestrutura de logística de transporte, os produtores baianos gastam cerca de US$ 80 para conseguir embarcar uma tonelada no navio para exportação. Nos Estados Unidos, maior concorrente brasileiro no segmento de grãos, o custo é de apenas US$ 25.

Competitividade

Busato explica que o estado das rodovias torna a situação mais crítica na Bahia, já que em outros estados ainda se consegue utilizar o transporte ferroviário. "Daqui a pouco, Mato Grosso vai conseguir colocar no navio milho e caroço de algodão por um custo menor que o da Bahia, que está mais próxima do porto, porque somos muito dependentes de rodovias, enquanto eles usam mais os trens", diz.

As projeções da Aiba são de que a região oeste baiana produza este ano 9 milhões de toneladas de grãos e fibras, o que representa 4% de toda a produção nacional. Hoje, 50% da produção de soja e algodão é destinada à exportação.

Já produtos como milho e o caroço do algodão são comercializados no mercado interno, abastecendo a Região Nordeste do país. "Cultivamos hoje na região 2,2 milhões de hectares, com potencial de expansão para mais 3,5 milhões de hectares, mas ninguém quer investir em condições tão adversas", diz Busato.

De acordo com dados da Seinfra, a maior parte dos custos dos produtores do oeste com a recuperação de rodovias (R$ 8 milhões) foi gasta na intervenção de 31 quilômetros na BA-504, na ligação da localidade de Timbaúba, em Barreiras, à BR-020. O orçamento total foi de R$ 16 milhões, com divisão, meio a meio, com o Estado .

Intervenções

As primeiras intervenções realizadas com participação da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) já beneficiaram quatro BAs, num total de 500 quilômetros de rodovias recuperadas. "Em alguns pontos mais emergenciais, a gente coloca cascalho até que o governo entre com a massa asfáltica", explica o presidente da entidade, Júlio Cézar Busato.

O cascalhamento foi usado, por exemplo, em 80 quilômetros de rodovias em Formosa do Rio Preto. Na BA-460, o trabalho, já com massa asfáltica, foi concluído, recuperando 54 quilômetros que ligam a comunidade de Placas à divisa do Tocantins.
Há obras no momento em outras três rodovias estaduais: na BA-463, que liga o município de São Desidério a BR-020, que está passando pela operação tapa-buracos ao longo de seus 124 km; na BA-459, conhecida como Anel da Soja, no trecho de Placas até o início da Ouro Verde e do Cerradão até a proximidade da Linha do Ouro; e na BA-225, na região da Coaceral, onde a ação vem sendo realizada, de forma paliativa, tendo um trecho recuperado com massa asfáltica e outro com cascalhamento, somando cerca de 60 km.
No chamado Anel da Soja, foi preciso por a mão na massa e antecipar os serviços nos trechos mais críticos, já que as obras licitadas só tinham previsão de início em maio. "Ainda assim, a rodovia tem locais onde a recuperação só poderá ser feita mesmo com o trabalho técnico especializado do governo", disse Busato, esperando que as intervenções sejam realmente iniciadas no próximo mês.
Fiol e Porto Sul

O presidente da Aiba lamenta a "desaceleração" das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que beneficiariam o oeste baiano. "A região enfrenta esse entrave de infraestrutura de transporte, o que aumenta nossa frustração com o ritmo das obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) e do Porto Sul, já  que elas nos tirariam mais dessa dependência das condições das rodovias".
 

Estado diz que algumas obras atrasaram por conta da chuva

O secretário de Infraestrutura, Marcus Cavalcanti, considera positiva a disposição dos empresários de contribuir com o estado para que as obras de recuperação de estradas andem mais rápido, facilitando o escoamento da produção. Segundo ele, boa parte das intervenções  só foram interrompidas pelo estado por conta das chuvas.
Cavalcanti destaca que foram feitas tanto parcerias informais, como nas ações  emergenciais, ou formalmente, por meio de contratos de PPP.
“Oficializamos, no caso da BA-504, uma PPP, em que os produtores locais entraram com R$ 8 milhões e o estado com a outra metade, sendo que foram os produtores que, neste contrato específico, compraram os insumos”, revelou.
Na semana passada, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) apresentou ao governo baiano o programa de ações previsto para as estradas federais que cortam a Bahia.